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Psiquiatra americano conta como a experiência de ficar doente muda a forma de os profissionais de saúde atenderem os pacientes Por CILENE PEREIRA
A experiência pessoal o despertou para a reflexão. Klitzman queria entender mais sobre as sensações, os medos e as descobertas dos médicos quando eles mesmos eram os doentes. Para isso, o psiquiatra entrevistou 50 colegas que haviam passado por essa vivência. O resultado da investigação está descrito no livro Quando os médicos se tornam pacientes, lançado nos Estados Unidos. A obra é a primeira sobre o tema e traz achados surpreendentes. Os médicos relataram, por exemplo, que só depois de ficarem internados é que perceberam como um ambiente avariado, com janelas ou aparelhos de tevê quebrados, interfere no estado de ânimo do enfermo. Eles também confessaram ter sentido na pele o que é sofrer com os sintomas considerados menores pelos profissionais de saúde – entre eles a dor, a náusea e a insônia – e não receber a atenção necessária. E todos, sem exceção, admitiram que mudaram a forma de tratar seus doentes após deixar o hospital. “Eles passaram a ver os doentes e a si mesmos de maneira radicalmente diferente. Tornaram- se muito mais sensíveis às queixas e às necessidades das pessoas a quem atendem”, disse o psiquiatra nesta entrevista à ISTOÉ. ISTOÉ – O que o levou a escrever o livro? ISTOÉ – Por que o sr. resistiu à idéia de que estava com depressão?
ISTOÉ – Como o sr. produziu o livro? ISTOÉ – Quais foram suas principais constatações? ISTOÉ – O que mais o surpreendeu? |
ISTOÉ – Que outras lições eles tiraram?
Klitzman – Eles notaram, quando deitados na cama como doentes, que o fato de seus médicos se sentarem na beira do leito, em vez de ficar em pé, ao lado da cama, faz uma grande diferença. Esta postura demonstra mais proximidade, acolhimento. Deixa o doente mais à vontade e seguro em relação a quem o está tratando. Por isso, quando voltaram ao trabalho, eles mudaram sua maneira de se aproximar dos pacientes. Começaram a se sentar próximo em vez de ficarem distantes, em pé.
ISTOÉ – Há outro exemplo?
Klitzman – Sim. Um cirurgião me disse que, quando ele foi submetido a uma operação, ouviu de seu médico, na noite anterior ao procedimento, algo como “existem 5% de chance de você morrer amanhã na sala de operação”. Este médico me contou que não conseguiu dormir naquela noite. Somente depois ele concluiu que seu cirurgião poderia ter mudado a forma de dizer o que falou. Poderia ter dito, por exemplo, “existem 95% de chance de que você continue vivendo depois de amanhã”. Este indivíduo me disse que praticava a medicina havia 30 anos e nunca percebera que essas duas afirmações, que estatisticamente são as mesmas, tinham significado emocional tão diferente para os pacientes. Como conseqüência, ele agora alterou sua maneira de informar os pacientes sobre suas chances de vida e tem orientado seus residentes a fazer o mesmo.
ISTOÉ – E quanto ao tratamento recebido dos enfermeiros?
Klitzman – Vários médicos disseram que, quando eles deixaram as enfermarias onde estavam internados, as enfermeiras disseram: “Você foi um bom paciente. Não nos incomodou em nenhum momento.” Eles ficaram perplexos com este tipo de comentário. Então a definição de “bom paciente” era a que fazia menção ao doente que não incomodava seus cuidadores.
ISTOÉ – Como ter ficado doente pode ajudar um médico a ser um profissional melhor?
Klitzman – De muitas maneiras. A experiência ajuda, por exemplo, a enxergar os erros de comunicação com o doente e a tentar melhorar essa aproximação. Os médicos que entrevistei disseram que a comunicação com seus especialistas era muito pobre. Agora, eles oferecem sugestões sobre como os doentes podem obter explicações precisas e compreensíveis sobre termos técnicos ou vagos demais. Eles conseguem interagir melhor com os pacientes.
ISTOÉ – Como isso passou a ocorrer na prática?
Klitzman – Alguns médicos ouviram de seus próprios especialistas coisas como “bem, seu câncer não deve reaparecer tão cedo” ou “muito rápido”. Mas o que é “tão cedo” ou “muito rápido”? Essas expressões significam semanas, meses ou anos? Ao passarem por essa situação, viram que devem dizer claramente o que são esses termos “rápido”, “devagar” ou “momentaneamente”. E admitiram que os pacientes podem e devem exigir de seus médicos definições mais precisas de expressões ambíguas. Além disso, eles sempre desprezavam parte das reclamações dos pacientes. Apenas quando se tornaram doentes é que começaram a levar muitas queixas mais a sério, percebendo como o cansaço freqüente, a insônia ou a náusea, sintomas considerados menores, poderiam ser muito mais incômodos e estressantes do que eles popodiam imaginar. Antes, quando o doente se queixava, pensavam: “É outro paciente que gosta de reclamar.”
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| "“Só depois de sentirem dor é que eles entenderam a intensidade do sofrimento que isso representa para o indivíduo" |
ISTOÉ – Há algum caso específico que ilustre essa questão?
Klitzman – A história de uma gastroenterologista que entrevistei é exemplar. Ela tratava dores abdominais e, de repente, começou a manifestar também o problema. Sabe o que esta médica me confessou? “Não tinha idéia de que, quando os pacientes falavam de dor, era aquilo terrível que eu estava sentindo. O sofrimento ia muito além do que podia ser descrito pelas palavras e eu mesma tive dificuldade em transmitir o que estava havendo comigo.” Este relato, assim como o de muitos outros que admitiram jamais terem imaginado a intensidade e os danos que causavam sintomas como dor e náusea, mostra quanto a maioria dos médicos ignora o padecimento dos doentes.
ISTOÉ – No livro, o sr. afirma que os médicos são ensinados a se colocar acima das doenças e dos doentes. Por que afirma isso?
Klitzman – Os estudantes de medicina implicitamente aprendem a ajustar- se à hierarquia médica, da qual obviamente fazem parte. Eles sempre vêem um médico experiente acima deles e os pacientes na última escala do ranking. Na pesquisa que fiz para o livro, médicos disseram, por exemplo: “Quando eu era apenas um paciente...” A frase revela como consideram o indivíduo que estão tratando. A educação médica tem de levar essas questões a sério e modificar esse entendimento.
ISTOÉ – O sr. também diz que os pacientes tendem a sentir medo dos médicos e assumir perante eles uma posição de reverência.
Klitzman – Realmente. Fiquei surpreso de ver que até mesmo os médicos com quem conversei tentaram ser “agradáveis” aos seus especialistas, queriam ser cooperativos e não dar más notícias a eles. Eles próprios ficaram surpresos de notar como “editavam” o que falavam para os profissionais de saúde. Descobriram que quando o médico lhes perguntava “como você está?”, eles respondiam “ok”, mesmo quando não se sentiam bem. Viram ainda que, quando falavam de seus problemas, suas dores, os médicos tendiam a ficar impacientes e de cara feia. No final, eles começaram a notar que seus próprios pacientes “editavam” o que sentiam.
ISTOÉ – Isso é um problema grave?
Klitzman – Os doentes apresentam a tendência de ser cautelosos e reverenciar os médicos, o que os impede de ter uma comunicação correta dos sintomas.
ISTOÉ – Como os médicos reagiram ao seu livro?
Klitzman – Para minha surpresa, meus colegas responderam de forma muito positiva. Acho que o livro despertou algo dentro deles: o lado humano que vive debaixo de seus aventais brancos. O livro conta histórias bem humanas – a minha e as outras – e penso que os leitores, incluindo os médicos, reconhecem isso. Eles conseguem se ver naquelas situações, o que, espero, os faça refletir mais sobre suas atitudes para com os doentes.
Fonte> Revista ISTOÉ
http://www.terra.com.br/istoe/
Nada como viver o outro lado de uma mesma situação para enxergá- la de maneira diferente. Quando se trata de um médico que experimenta a circunstância de ser, ele próprio, o doente, o impacto pode ser profundo. A experiência deixa lições marcantes e resulta na maioria das vezes em uma mudança drástica na maneira de praticar a medicina. Algo como antes e depois de ser doente por um dia. Esta foi a constatação do psiquiatra americano Robert Klitzman, professor associado de clínica psiquiátrica da Universidade de Colúmbia, em Nova York, nos Estados Unidos. A conclusão foi obtida a partir de duas fontes. A primeira, ele mesmo. Dias após o ataque de 11 de setembro, em 2001, Klitzman caiu deprimido. Além da tragédia em si, o atentado atingiu diretamente sua família, já que sua irmã estava entre as vítimas. Mesmo com todos os sintomas da doença que conhece tão bem, o médico relutou em aceitar o diagnóstico. Aos que mencionavam a possibilidade de o psiquiatra estar com depressão, ele respondia que na verdade estava apenas gripado. Havia dois problemas aí. Klitzman se sentia envergonhado e fraco, exatamente os sentimentos que tanto lutara para tirar de seus pacientes. O psiquiatra também manifestava a típica característica da categoria de se sentir imune às enfermidades. “Acho que os médicos pensam que vestem mágicos casacos brancos. Doenças acontecem para todos os outros, menos para eles”, diz.


2 comentários:
ou seja, o paciente tem de ser facilmente "moldado", como se fosse uma peça, um objeto de análise e trabalho meramente a ser planejado e resolvido pelos médicos: "uma camisola aberta atrás" que facilita as coisas na hora de ter os cuidados médicos... um afastamento entre "objeto de pesquisa e pesquisador", uma coisa bem Descartiana e Durkheimniana, ein?! Terrível!! nunca pensei sobre esse lance de sentar na cama ou falar em pé... realmente é foda!!
e o lance sobre o "você rezaria por mim?"?! kct, puta porrada na orelha!! um cientificismo que impede, inclusive, a aproximação mais humanitária entre médico e paciente... ou seria entre o Médico e O MONSTRO? talvez aqui valha o ditado: "no CU dos outros é refresco", não?
e o que falar do Bom Paciente (bom selvagem!), então?! quanto menos trabalho der, maior a qualidade do paciente. Não se trata de como está vivendo, mas de o quanto suporta o descaso e o esquecimento. é preciso, primeiro, ser guerreiro pra depois ser enfermo (no inferno)... me faz pensar no professor que considera BOM ALUNO aquele quietinho que, mesmo não aprendendo muito as coisas, não fala e não arruma confusão... pode ser que ele tenha algum problema (em casa ou com os coleguinhas), mas o importante é que ele obedece e fica quieto na dele...
realmente, isso às vezes acontece até EM CASA, né?! é o "outro que gosta de reclamar", como se fosse opcional a dor, os sentimentos ditos MENORES, dentre eles creio que a tristeza, o desânimo, a falta de coragem, a apatia possam ser incluídos
hehehe mais um ponto a se comentar: médico acima da doença e do doente... realmente, a filosofia dos Deuses Doutores (que de doutores, muitos não têm nada)
noooossa, e o que dizer sobre a edição de sensações e sintomas? é, fato!! acredito que todo mundo faça isso um pouco, não?! gostaria que todos os médicos lessem esta entrevista e repensassem um pouco mais, para que, assim, a partir de então admitissem uma nova postura de perguntar "como você está?" e seguir, antes da resposta, "mas não se sinta acanhado em me responder com sinceridade exatamente o que está sentindo. Ambos precisamos de tudo às claras para que o processo seja mais simples de ser resolvido." ou algo do tipo, falaê!!
parabéns por republicar esta ótima matéria... por incrível que pareça, do grupo Globo, né hehe!!
abraços mano
ops, percebi agora:
do grupo GLOBO é a ÉPOCA - que vc publicou no post anterior hehe
ISTOÉ não é da Globo, acho!! oO
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