RODKA E EU
Ao terminar de ler crime e castigo me lembrei de um fato que merece ser relatado aqui:
Eu estava lá a mais de um ano, ali tinha me ressignificado centenas de vezes. Por todas as vezes que me desanimava olhava para o olho da rua com um olhar apático e pensava "este é meu lugar, daqui sou merecedor e não abro mão."
Ao passar do tempo os tropeços se intensificavam e com maior frequêcia esfregávamos nossos narizes no asfalto. Como por exemplo quando atrasaram nossos salários 3 meses consecutivos, nos permitindo "faltar" enquanto o dinheiro não caísse contanto que estivéssemos cientes de que tais dias seria descontados.
E então em meio a situação, fiz um acirúrgia classificada como estética onde me ausentei por metade do tempo permitido pelo médico e assim como já constavam nas regras do estágio, os descontos permaneciam nos gratificando a cada nova dificuldade.
Enfim a decisão, "isso é secundário, supérfluo, banal..". E nossa relação passou a ser como tal. Nete momento me senti integrado, percebi no meu lhar, o mesmo brilho presente no d agrande maioria. todos olhávamos o "olho da rua" com a garganta seca nos perguntando ansiosamente o que nos aguardava.
Após dois meses neste estado, fui acometido novamente pela ressignificação, como se fosse uma febre que aparece no meio da noite. Voltei a encontrar sentido no que fazia, sofria com ansiedade só de presenciar determinados momentos de nosso trabalho. Olhava intrigado para cada rosto me perguntando o que revelariam em meio a nossa interação e vltei a ter esperança de que todos nós nos modificaríamos em comunhão com o conhecimento e a humildade.
E então, no dia seguinte desta "febre", sou retirado das atividades de rotina:
- precisamos conversar
Entrei na sala e havia uma pessoa com minha folha de ponto em cima da mesa, a minha anfitriã sentou-se do outro lado da mesma, fácilmente ilustrando a metáfora de "fechando o cerco". As questão comearam bem objetivas:
- Essa assinatura é sua? - Assim como o meu caro Rodka eu esbocei aquele olhar cínico de falsa superioridade afirmei:
- Sim é lógico que é.
- Você veio todos estes dias?
- Sim, mas que pergunta!
- Então você veio todos esses dias?
- Se há algo de errado, vocês poderiam falar, que tal?
- Temos registros e pessoas (leiam testemunhas) que afirmam que você não foi trabalhar alguns destes dias.
- Mas eu fui - respondendo atordoado.
- Temo fichas não assinadas por você - prova falsa, descuido administrativo do próprio grupo.
- Eu não tive acesso as mesmas - verdade irrefutável, porém já fodida pelo contexto.
- Podemos chamar o seu grupo para confirmar.
- Estou esperando - Aquilo estava ficando itneressante.
Entram três pessoas na sala com cara de velório.
A investigadora, digo "educadora" pergunta:
- Ele foi trabalhar este dia?
O grupo finge averiguar como se na memória bastasse, eu lhes refresco a mente relatando o que aconteceu no dia.
- Sim, ele foi.
E a cena se repetiu durante as outras 10 fichas.
O grupo fois dispensado e as provas falsas reaparecem em torreente:
- a diretora nos ligou, afirmou que você faltou cinco vezes
- não é verdade - respondo desacreditado.
- ligaram para nós e perguntaram se o seu trabalho era quinzenal, e não foi a direção.
Eu estava começando a achar o máximo, em um instante virei meu herói e imaginei que tivesse chutado o balde de forma tão esplendorosa que me dava gosto contemplar ao mesmo tempo que invejei a posição da qual me colocaram.
E então, em um ato digno de Raskolnikov confesso a verdade, no intuito de reduzir os danos:
- Eu faltei dois dias, assinei pois achei que não haveria a compreensão de vocês - assim como poderíamos notar no momento - e peço desculpas mas não fiz por mal.
- E os outros dias?
No momento eu fiquei me perguntando onde estaria a foto de meus familiares, a ameaça de que iriam morrer por minha culpa, o pau de arara, os metais transmissores para o eletrochoque e os demais instrumentos que transformariam a tortura psicológica em física.
- olha... não são verdade.
- Quais dias você faltou? - indagou a Sherlock.
- Eu não me lembro, não tive este controle.
Atrás das duas educadoras humanitárias estava um quadro do Paulo Freire reluzindo na parede, com todo o semblante intelectual de quem sempre teorizou a opressão para revertê-la em prol de dignidade ao longo da prática. A coerência me parecia tamanha que eu me sentia na frente de dois argentinos dizendo que o Pelé havia sido o melhor jogador do mundo.
Então, Sherlock e o seu inseparável Watson proferem:
- Aguarde lá fora, temos de conversar.
Após quinze minutos me chamam em outra sala, repetem a última pergunta e eu não consigo responder mas do que uma risada cínica e a seguinte pergunta:
- Vocês querem saber se eu agi de má fé?
- É. Queremos.
Diante das dua semideusas prontas para julgar além do bem e do mau, eu me detetive de forma sucinta, e mais digna impossível:
- Olha, façam o que acharem melhor ok?
Pois é, me mandaram embora e foi a primeira demissão em minha vida.
Eu, nascido de uma família de pessoas servis que se mantiveram em empregos por mais de décadas exaltando como seus patrões eram benevolentes, me senti o cocô do cavalo do bandido, porém, um cocô bem orgulhoso por sinal. Daquele que sabem que seu orgulho jamais pagariam qualquer comida repetindo em sua mente "antes morrer de pé..."
E foi assim que percebi que peguei para ler o livro que meu inconsciente ordenou.
E então, em silêncio, selei minha amizade e cumplicidade com Raskolnikov, cujo seu apelido tem as 3 iniciais idênticas ao meu nome. E sua conduta da mesma forma digna e estabanada, assim omo a minha.
Ao velho russo e deprimido, só me resta agradecer.
Lembrando que a história contém dose e romantismo, jamais negaria isso diante de seus julgamentos meu caro leitor. Aqui não me cabe qualquer imparcialidade, apenas a minha inegável e traiçoeira identidade.
Eu estava lá a mais de um ano, ali tinha me ressignificado centenas de vezes. Por todas as vezes que me desanimava olhava para o olho da rua com um olhar apático e pensava "este é meu lugar, daqui sou merecedor e não abro mão."
Ao passar do tempo os tropeços se intensificavam e com maior frequêcia esfregávamos nossos narizes no asfalto. Como por exemplo quando atrasaram nossos salários 3 meses consecutivos, nos permitindo "faltar" enquanto o dinheiro não caísse contanto que estivéssemos cientes de que tais dias seria descontados.
E então em meio a situação, fiz um acirúrgia classificada como estética onde me ausentei por metade do tempo permitido pelo médico e assim como já constavam nas regras do estágio, os descontos permaneciam nos gratificando a cada nova dificuldade.
Enfim a decisão, "isso é secundário, supérfluo, banal..". E nossa relação passou a ser como tal. Nete momento me senti integrado, percebi no meu lhar, o mesmo brilho presente no d agrande maioria. todos olhávamos o "olho da rua" com a garganta seca nos perguntando ansiosamente o que nos aguardava.
Após dois meses neste estado, fui acometido novamente pela ressignificação, como se fosse uma febre que aparece no meio da noite. Voltei a encontrar sentido no que fazia, sofria com ansiedade só de presenciar determinados momentos de nosso trabalho. Olhava intrigado para cada rosto me perguntando o que revelariam em meio a nossa interação e vltei a ter esperança de que todos nós nos modificaríamos em comunhão com o conhecimento e a humildade.
E então, no dia seguinte desta "febre", sou retirado das atividades de rotina:
- precisamos conversar
Entrei na sala e havia uma pessoa com minha folha de ponto em cima da mesa, a minha anfitriã sentou-se do outro lado da mesma, fácilmente ilustrando a metáfora de "fechando o cerco". As questão comearam bem objetivas:
- Essa assinatura é sua? - Assim como o meu caro Rodka eu esbocei aquele olhar cínico de falsa superioridade afirmei:
- Sim é lógico que é.
- Você veio todos estes dias?
- Sim, mas que pergunta!
- Então você veio todos esses dias?
- Se há algo de errado, vocês poderiam falar, que tal?
- Temos registros e pessoas (leiam testemunhas) que afirmam que você não foi trabalhar alguns destes dias.
- Mas eu fui - respondendo atordoado.
- Temo fichas não assinadas por você - prova falsa, descuido administrativo do próprio grupo.
- Eu não tive acesso as mesmas - verdade irrefutável, porém já fodida pelo contexto.
- Podemos chamar o seu grupo para confirmar.
- Estou esperando - Aquilo estava ficando itneressante.
Entram três pessoas na sala com cara de velório.
A investigadora, digo "educadora" pergunta:
- Ele foi trabalhar este dia?
O grupo finge averiguar como se na memória bastasse, eu lhes refresco a mente relatando o que aconteceu no dia.
- Sim, ele foi.
E a cena se repetiu durante as outras 10 fichas.
O grupo fois dispensado e as provas falsas reaparecem em torreente:
- a diretora nos ligou, afirmou que você faltou cinco vezes
- não é verdade - respondo desacreditado.
- ligaram para nós e perguntaram se o seu trabalho era quinzenal, e não foi a direção.
Eu estava começando a achar o máximo, em um instante virei meu herói e imaginei que tivesse chutado o balde de forma tão esplendorosa que me dava gosto contemplar ao mesmo tempo que invejei a posição da qual me colocaram.
E então, em um ato digno de Raskolnikov confesso a verdade, no intuito de reduzir os danos:
- Eu faltei dois dias, assinei pois achei que não haveria a compreensão de vocês - assim como poderíamos notar no momento - e peço desculpas mas não fiz por mal.
- E os outros dias?
No momento eu fiquei me perguntando onde estaria a foto de meus familiares, a ameaça de que iriam morrer por minha culpa, o pau de arara, os metais transmissores para o eletrochoque e os demais instrumentos que transformariam a tortura psicológica em física.
- olha... não são verdade.
- Quais dias você faltou? - indagou a Sherlock.
- Eu não me lembro, não tive este controle.
Atrás das duas educadoras humanitárias estava um quadro do Paulo Freire reluzindo na parede, com todo o semblante intelectual de quem sempre teorizou a opressão para revertê-la em prol de dignidade ao longo da prática. A coerência me parecia tamanha que eu me sentia na frente de dois argentinos dizendo que o Pelé havia sido o melhor jogador do mundo.
Então, Sherlock e o seu inseparável Watson proferem:
- Aguarde lá fora, temos de conversar.
Após quinze minutos me chamam em outra sala, repetem a última pergunta e eu não consigo responder mas do que uma risada cínica e a seguinte pergunta:
- Vocês querem saber se eu agi de má fé?
- É. Queremos.
Diante das dua semideusas prontas para julgar além do bem e do mau, eu me detetive de forma sucinta, e mais digna impossível:
- Olha, façam o que acharem melhor ok?
Pois é, me mandaram embora e foi a primeira demissão em minha vida.
Eu, nascido de uma família de pessoas servis que se mantiveram em empregos por mais de décadas exaltando como seus patrões eram benevolentes, me senti o cocô do cavalo do bandido, porém, um cocô bem orgulhoso por sinal. Daquele que sabem que seu orgulho jamais pagariam qualquer comida repetindo em sua mente "antes morrer de pé..."
E foi assim que percebi que peguei para ler o livro que meu inconsciente ordenou.
E então, em silêncio, selei minha amizade e cumplicidade com Raskolnikov, cujo seu apelido tem as 3 iniciais idênticas ao meu nome. E sua conduta da mesma forma digna e estabanada, assim omo a minha.
Ao velho russo e deprimido, só me resta agradecer.
Lembrando que a história contém dose e romantismo, jamais negaria isso diante de seus julgamentos meu caro leitor. Aqui não me cabe qualquer imparcialidade, apenas a minha inegável e traiçoeira identidade.

Um comentário:
me fez lembrar Malatesta quando afirma, no fim do livro A ANARQUIA, que enquanto cairmos com as bandeiras erguidas, haverá esperança (algo assim)
me fez lembrar, também, Sócrates que não negou seus pensamentos na antiga Grécia ou Émily Henry na França, após explodir um café burguês e balear policiais, que assumiram a responsabilidade de seus atos, sabendo que poderiam (e assim foi) sofrer penas por tais... diferentemente de outros q afirmaram coisas e inverteram-nas perante o jugo clerical
imagino a situação... constrangedora, opressora, redutora, mas não menos crucial pra se afirmar enquanto um sujeito verdadeiro e não um mero boneco de ventríloqüismo de uma realidade cristalizadora e cega às necessidades, mas sempre pronta às penalidades!
abraços!
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