CARENTE$

Atualmente estou trabalhando em uma organização que abriga crianças destituídas da guarda da família. É impressionante como as instituições se imprimem sobre as pessoas. Não. Eu não estou falando só do abrigo, eu falo de tudo que o antecede, e de tudo o que sequencia uma situação de abrigamento.
É difícil lidar com a necessidade... Me refiro a necessidade como um sentimento de insatisfação constante independente do que você tenha (seja como posse material, ou como vínculo afetivo). A dinâmica da necessidade se manifesta sobre a carne de crianças que encontram em um abrigo, as chances de vivenciarem experiências das quais foram privadas anteriormente. Ou ainda, a chance de não viver as experiências dilacerantes que a acompanharam até aquele momento.
Eis que surge a instrumentalização do trauma, aquilo que tanto me machuca, sentimento de abandono que tanto me fez sofrer deixando que eu acreditasse que nada no mundo haveria de se importar comigo, agora é parceiro inseparável. É sobre o abandono que eu me mostro, é junto do abandono que eu me articulo, me construindo como um ser de núcleo supostamente vazio, moldado pela imaginação do outro, que ao ver minha mazela, implicará sobre mim, a dor eterna do que ele mais teme.
É assim que se estabelece uma aliança pra lá de perversa. Onde os dois fingem se amar num amargurado mar de culpa e vazio. Onde a minha necessidade grita, barganha e esperneia e o ser culpado pode se lançar sobre meu vazio se perdendo junto de mim, fazendo uma comunhão pra lá de infeliz. A chamada caridade, é sem sombra de dúvida, o calmante para que se chegue ao "sono dos justos", sem necessariamente ser justo. Remédio de efeitos paliativos com forte impregnação na auto-imagem, pintando de cor de rosa as garras de um parasita voraz que se alimenta de desgraça alheia, e principalmente: sangue supostamente inocente.
Fico me perguntando a relação entre a barbárie que as crianças sofreram em seus lares e as motivações das almas pias. Sinto como se o natal que o guri passa com nossa família, embriaga o espinho na consciência, trazendo a criança negra e pobre para expiar o meu consentimento com todas as vilanias por mim já pactuadas.
Uma ilustração para o raciocínio, é o caso de uma mulher que quatro anos após adotar uma criança, a abandona, e logo em seguida, redobra a sua carga horária no trabalho comunitário, sempre em prol dos "carentes". O que a Madre Tereza acima não se deu conta é de que a sua suposta ajuda, é a voz da culpa de um abandono, que apenas alimentará a depreciação de quem um dia já foi negligenciado.
É difícil lidar com a necessidade... Me refiro a necessidade como um sentimento de insatisfação constante independente do que você tenha (seja como posse material, ou como vínculo afetivo). A dinâmica da necessidade se manifesta sobre a carne de crianças que encontram em um abrigo, as chances de vivenciarem experiências das quais foram privadas anteriormente. Ou ainda, a chance de não viver as experiências dilacerantes que a acompanharam até aquele momento.
Eis que surge a instrumentalização do trauma, aquilo que tanto me machuca, sentimento de abandono que tanto me fez sofrer deixando que eu acreditasse que nada no mundo haveria de se importar comigo, agora é parceiro inseparável. É sobre o abandono que eu me mostro, é junto do abandono que eu me articulo, me construindo como um ser de núcleo supostamente vazio, moldado pela imaginação do outro, que ao ver minha mazela, implicará sobre mim, a dor eterna do que ele mais teme.
É assim que se estabelece uma aliança pra lá de perversa. Onde os dois fingem se amar num amargurado mar de culpa e vazio. Onde a minha necessidade grita, barganha e esperneia e o ser culpado pode se lançar sobre meu vazio se perdendo junto de mim, fazendo uma comunhão pra lá de infeliz. A chamada caridade, é sem sombra de dúvida, o calmante para que se chegue ao "sono dos justos", sem necessariamente ser justo. Remédio de efeitos paliativos com forte impregnação na auto-imagem, pintando de cor de rosa as garras de um parasita voraz que se alimenta de desgraça alheia, e principalmente: sangue supostamente inocente.
Fico me perguntando a relação entre a barbárie que as crianças sofreram em seus lares e as motivações das almas pias. Sinto como se o natal que o guri passa com nossa família, embriaga o espinho na consciência, trazendo a criança negra e pobre para expiar o meu consentimento com todas as vilanias por mim já pactuadas.
Uma ilustração para o raciocínio, é o caso de uma mulher que quatro anos após adotar uma criança, a abandona, e logo em seguida, redobra a sua carga horária no trabalho comunitário, sempre em prol dos "carentes". O que a Madre Tereza acima não se deu conta é de que a sua suposta ajuda, é a voz da culpa de um abandono, que apenas alimentará a depreciação de quem um dia já foi negligenciado.

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