EM NOSSOS CAMPOS
Recebi uma recomendação de leitura muito especial, de alguém não menos especial, que por algum motivo quis compartilhar comigo a angústia de compartilhar a angústia do outro.
É isto um homem?, é um profundo relato de vivências e reflexões acerca do ser humano desbravado dentro do que chamam de desumanizante. O relato comove, as reflexões são pertinentes, e dentre muitas, você não precisa estar enclausurado sob situações limites para se identificar com um bocado delas.
Corri pelas páginas com os olhos de um espectador atento, daquele que não quer perder nenhum lance do jogo, mi irritei inúmeras vezes em que tive que parar de ler por diversos motivos. E dentre todas as brutalidades vividas em um campo de concentração, me chamou a atenção a coragem do autor de não abrir mão de olhar para cada pessoa ao seu lado, e buscar nelas, suas responsabilidades como sujeitos q se vitimizaram mutuamente, praticando todas as vilanias possíveis consigo e com seus semelhantes (não estou me referindo só aos prisioneiros dos campos).
Para não me estender, me atenho a dizer que o relato é emocionante sem abdicar do raciocínio moral.
Hoje, ao longo da leitura, me deparei com a narração que mais me chocou, Primo Levi conta dos exames periódicos em função da "rotatividade" que girava em torno da prática de extermínio, e ao narrar a angústia de homens nus, famintos, sentindo sua carne tremula se perguntando se aquele era o momento de sua morte, assim pôde presenciar amigos sendo levados por guardas de uma forma que nenhuma racionalidade satisfaz o afeto com qualquer que seja a compreensão. Nesta passagem eu perco o ar, fico aflito, os olhos ficam marejados e o livro passa a ser segurado com força.
Dentre os outros materiais, nenhum havia me passado as impressões de quem está na fila da morte. E ao refletir sobre meus sentimentos, me dou conta do quão terrificante é encarar a morte como algo irrevogável e talvez até aleatório. E assim noto que ao ver os amigos de Levi serem sacrificados, percebi que dentro de mim, também foi difícil ver as minhas crenças ruírem perante o guarda da realidade.
Me lembro do quanto é doloroso ter de matar crenças e ilusões que nos acompanham boa parte da vida, de alguma forma nos fortalecendo e compondo nosa sujetividade fazendo de nós o que sabemos ser, nem mais nem menos. Eis que por episódios e vivencias cotidianas, estas crenças encontram seu paredão, sentimos uma angústia de morte em ter que abandonálas, e assim deixar perecer o seu "amigo" que te ajudou a sobreviver por tantos anos. E assim como Levi afirma, sentir o alívio indicando que apesar da morte daquele te acompanha, você sobreviveu.... Seguirá o seu caminho sabendo que em algum lugar deixou parte de si, para que continue sendo você mesmo.
Ao contrário de Auschwitz que encontrou o seu fim, seguimos renovando os campos de controle de nossa alma. Destes o princípio de realidade jamais irá abrir mão.
É isto um homem?, é um profundo relato de vivências e reflexões acerca do ser humano desbravado dentro do que chamam de desumanizante. O relato comove, as reflexões são pertinentes, e dentre muitas, você não precisa estar enclausurado sob situações limites para se identificar com um bocado delas.
Corri pelas páginas com os olhos de um espectador atento, daquele que não quer perder nenhum lance do jogo, mi irritei inúmeras vezes em que tive que parar de ler por diversos motivos. E dentre todas as brutalidades vividas em um campo de concentração, me chamou a atenção a coragem do autor de não abrir mão de olhar para cada pessoa ao seu lado, e buscar nelas, suas responsabilidades como sujeitos q se vitimizaram mutuamente, praticando todas as vilanias possíveis consigo e com seus semelhantes (não estou me referindo só aos prisioneiros dos campos).
Para não me estender, me atenho a dizer que o relato é emocionante sem abdicar do raciocínio moral.
Hoje, ao longo da leitura, me deparei com a narração que mais me chocou, Primo Levi conta dos exames periódicos em função da "rotatividade" que girava em torno da prática de extermínio, e ao narrar a angústia de homens nus, famintos, sentindo sua carne tremula se perguntando se aquele era o momento de sua morte, assim pôde presenciar amigos sendo levados por guardas de uma forma que nenhuma racionalidade satisfaz o afeto com qualquer que seja a compreensão. Nesta passagem eu perco o ar, fico aflito, os olhos ficam marejados e o livro passa a ser segurado com força.
Dentre os outros materiais, nenhum havia me passado as impressões de quem está na fila da morte. E ao refletir sobre meus sentimentos, me dou conta do quão terrificante é encarar a morte como algo irrevogável e talvez até aleatório. E assim noto que ao ver os amigos de Levi serem sacrificados, percebi que dentro de mim, também foi difícil ver as minhas crenças ruírem perante o guarda da realidade.
Me lembro do quanto é doloroso ter de matar crenças e ilusões que nos acompanham boa parte da vida, de alguma forma nos fortalecendo e compondo nosa sujetividade fazendo de nós o que sabemos ser, nem mais nem menos. Eis que por episódios e vivencias cotidianas, estas crenças encontram seu paredão, sentimos uma angústia de morte em ter que abandonálas, e assim deixar perecer o seu "amigo" que te ajudou a sobreviver por tantos anos. E assim como Levi afirma, sentir o alívio indicando que apesar da morte daquele te acompanha, você sobreviveu.... Seguirá o seu caminho sabendo que em algum lugar deixou parte de si, para que continue sendo você mesmo.
Ao contrário de Auschwitz que encontrou o seu fim, seguimos renovando os campos de controle de nossa alma. Destes o princípio de realidade jamais irá abrir mão.

3 comentários:
Uma das coisas que mais me chama a atenção no livro são as descrições de como tudo no campo era pensando como um processo de desumanização, até mesmo (ou por isso mesmo ?) o mais trivial: tirar dos prisioneiros suas roupas, objetos,nome, fotos, etc. E penso: contra os "campos de controle de nossa alma", o que faz com que nos tornemos menos humanos?
Outra coisa que impressiona, é a necessidade de narrar que perpassa o relato todo. Narrar a catástrofe como forma de reestruturar a si mesmo, como forma de voltar a ser humano. Ainda que narrar seja materializar o medo de não querer ser ouvido e a culpa, humilde e cruel, de ter sobrevivido.
O que acaba por revelar a história como um trauma.
olha, não li o livro mas percebo que deva ser uma leitura envolvente e de fato matadora!
o abandonar ou perda de "amigos", pergunto, necessariamente é definitivo?
Postar um comentário