terça-feira, março 10, 2009

HABITANDO CAMINHOS

Tenho feito em média entre 1:40 e 2:00 de trajeto entre casa e o trabalho. Hoje, devido a um compromisso, saí de outro ponto da cidade e fiquei 2:40 no trajeto. Pela janela do ônibus pude ver paisagens que já conhecia através de vivências em outros trabalhos e me lembrava de como era desgastante ficar mais de uma hora dentro do ônibus para chegar em algum lugar, nessas ocasiões, prometi a mim mesmo que jamais trabalharia tão longe. Enfim, com o tempo se percebe que não é essa a questão.

Hoje, 12:20, na teceira condução do dia e na segunda só daquele trajeto, por estar quase perdido e fazer uma vaga idéia da onde estava, resolvi tirar a dúvida com um cara do meu lado, aparentava ter uns vinte e poucos anos, pele negra e olhar calmo:

- opa, por favor, sabe se esse ônibus passa no Jd Debora?

- Ihhhh tá longe véio. Desce no centro e pega o...

- Jd São José né?

- Isso.

- Complicado né? A cidade é pequena, mas é quase impossível ir a algum lugar aqui com ´soum ônibus.

- Nem me fale, é muito mal planejado, mas o prefeito disse que agora vai ter bilhete único, mas sei lá, os ônibus aqui são muito mal distribuídos, tem quatro linhas em toda a cidade, e mesmo assim elas ficam rodando e levando a lugar nenhum.

Enquanto eu o ouvia, pensava se quem planejava as rotas dependia das mesmas. Reforcei:

- Quando cheguei aqui, fiquei impressionado sabe? A cidade é dividida pela linha do trem, é como se tivesse uma de cada lado, quando é pra se passar pro outro, é sempre uma dificuldade.

- Nem me fale, quase tudo que eu faço na minha vida, eu levo no mínimo uma hora e meia, trabalhava numa região não muito distante, e gastava duas horas no caminho, duas pra ir, duas pra voltar, tem noção do que é isso? São duas horas da sua vida cara, chaqualhando dentro de um ônibus, passando calor, vendo tudo passar. Imagina, isso na ida, e depois na volta, já pensou no final da vida quanto tempo isso vai dar?

- Literalmente anos de transporte público.

- Pois é, é foda!

- Sim, é foda!

Chegamos onde queríamos e eu fui para a terceira condução do trajeto e a quarta do dia. Enquanto me distanciava, me lembrei do texto do Ivan Ilich do livro Apocalipse Motorizado, no texto, o autor analisa os aspectos da sociedade do automóvel, e de como a tecnologia, a propriedade privada e pistas largas combinavam pouco com qualidade de vida. Dentre as idéias, Ilich sucita a afirmação de que a velocidade nos tempos atuais é uma questão de poder econômico, a locomação está para o poder privado, assim como todo o resto. Para sustentar tal idéia, ele nos traz o exemplo dos aviões, para que um homem cruze continente em poucas horas é necssário que, tantos outros façam o seu avião, pilotem, trabalhem nos serviços de embarque e desembarque e principalmente: deixem o céu livre para que ele possa passar. Imagine que o avião seja um meio popular de transporte, e todo nós possamos viajar nele a qualquer momento, feito um executivo em seu jato particular. Simplesmente aconteceria o que acontece com as ruas, na medida em que o consumidor desenvolve "poder de consumo", ele ocupa o seu espaço na pista, e então se faz necessário cada vez mais pista. A pista ocupa espaço, e então quem anda a pé ou de bicicleta passa a andar mais, para atravessar a distância ocupada pelas pistas. E assim quem tem menos paga o preço de ir mais devagar para mais longe para que quem tem mais desfrute dos "tapetões".

Dentre os efeitos colaterais para quem transita no que sobrou da "grande metrópole", ficou a certificação de que a rua, como um espaço público, não é mais um espaço de convivência, e sim um meio de circulação, principalmente; da bolha privada. O motorista de sua janela, não vê muito além de semáforos e pedintes. Não vivencia seus ambientes, não tem afeto com sua cidade, só com as luzes que iluminam seu caminho, olhar para os lados é provocar acidente, isso poderia soar metafórico, mas é catastroficamente concreto. É difícil se estabelecer afeto com o que não se vê ou não se sente, e então trancado na sua bolha respirando seu ar condicionado, ele odeia sua cidade, o seu calor escaldante e sua poluição adoecedora. A fumaça produzida pela bolha, deixa de ser problema seu e passa a ser de quem está atrás, ao lado, acima e até de abixo do buraco que ela produz.

Postarei aqui, aos poucos, registros do meu caminho, retratos do progresso e da morada de quem não só circula, mas respira o seu meio, respira as paisagens, o solo, as dificuldades e até mesmo a tranquilidade de não acelerar quando vê a cor amarela.

Esse post abre uma série. Para respeitar a ordem do caminho, fica aqui, a fotografia do primeiro passo de quando saio para encarar o espaço-carro. Por sorte, o primeiro passo é mais ameno. E a cidade dentro da cidade (condomínio) talvez amenize mesmo a realidade da cidade fora da cidade (cidade).


Um comentário:

tatiane marchi disse...

=)
Esperando pelas outras paisagens do trajeto.

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