O semáforo
Era 15:00 da tarde, seus olhos ardiam, a cabeça pesava como se seu cérebro fosse feito de chumbo, e as lágrimas mais uma vez desciam. Dirigia como se fosse fazer isso por doze horas, na verdade, era sua vontade, dirigir até não ver mais nada daquilo, até não ver mais nada de si.
Na cabeça, essa bem pesada, que ainda parecia estar recheada de sentimentos cinzas com texturas rígidas e metálicas, ficava passando flashbacks, como alguém que curtiu uma rave que durou alguns anos, lembrava de momentos felizes, de vulnerabilidades, de pedidos de ajuda e de carinho, de pequenas brigas, e de reconciliamentos afetuosos. Lembrou-se do carinho da família, das manias da mãe, das esquisitices do pai, e de como era olhado por todos quando aparecia por trás da filha. Sentia-se culpado, um perfeito filha da puta, o peso da escolha o fazia querer morrer, sumir, ou talvez; dirigir por doze horas... Tinha a sensação de que deveria provar que não prestava, queria o perdão antes motivá-lo, se sentia fraco e tratorado, morto por si, morto pelo desejo do não desejo. Pensava se teria volta, se ainda teria escolha, se viria a se arrepender por ter escolhido, ou por ter se mexido, como quando escutava da sua mãe "eu não mandei você ficar quieto no seu lugar? Bem feito..".
A luz transaladava em seu rosto pelo pára-brisa zombeteira, ridícula, ínfima, como se lhe dissesse "olha imbecil, todo o resto continua aqui..", mas ele mal percebia. ao parar em um farol, sentindo as gotas salgadas escorrerem pelo rosto, desejando estar invisível, escuta batidas no vidro..
- o irmão, tô na correria, tem um tro. Tá chorando?
- hã? - com a cara de quem perdeu a mãe.
- Que aconteceu mano?
- ehhhh, nada.
- Tomou uma bota da mina?
- ehhh, não. na verdade..... contrário - ele aceitou o encontro, o consolo de quem emerge entre o vidro lateral e paira sobre sua vista como um evento bíblico contemporâneo.
- Ah mano, não fica assim não. Oh, bola pra frente tá ligado?
Semáforo verde.
- Valeu, um abraço.
- Te cuida.
E foi assim que o farol virou divã, a esmola virou encontro e a moeda virou afeto.

3 comentários:
...
difícil emitir palavras a respeito...
...
apenas uma identificação muito grande, e óbvia, meu caro amigo
nunca havia pensado na possibilidade de estar em um conto
mas não é que acontece?
irritação? não, é engraçado e até belo por este ângulo
é, talvez a cabeça não seja mais recheada de chumbo, e "o resto" que "continua aqui" seja mais visível...
mas a responsabilidade pela escolha, é, isso é algo que o personagem não pode evitar...
bjo, mano!
Tá aí algo bem difícil de acontecer: moeda virar afeto.
Gostei!
Beijos!
Eu conheço essa história...
=)~~
mto bonita por sinal
Oo
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