Sobre gozo e trens

Eram 16:25 na estação Dom Bosco, o trem com seu ar condicionado e suas janelas escurecidas cria uma atmosfera quase privada, a falta de ventilação me provocava a sensação de estar sendo transportado em uma encubadora fria e eficaz.
Devorava um romance com um pouco de remorso, por saber que o autor levou cinco anos para escrever e que eu, o consumiria em menos de um mês, como comer comida caseira em um ritmo de fast food. Na estação anterior embarcaram e sentaram três garotos ao meu lado, tinham todo o estilo perifa, pelas gírias, roupas e tudo o mais que pudesse atrair preconceito, falavam de garotas, cantavam pagode melódico e rap, e faziam piadas inegavelmente engraçadas que me tiravam a concentração da leitura a cada miseráveis trinta segundos.
Um vendedor perambulava de um canto a outro do vagão oferecendo chocolates quase pela metade do preço, os garotos, começaram a discutir sobre o tamanho do chocolate e então, um deles, com uma chamada corajosa, comprou e pagou a língua. Seu amigo que repetia feito uma matraca que o chocolate era do tamanho de um bis, só para contrariá-lo nessas conversas de amigos em que gostamos até de debater se o azul é realmente azul, fez questão de mostrar com o chocolate em sua mão, que a porra do chocolate era do tamanho de um bis, e não menor, como o amigo comprador pagador de língua havia repetido tantas outras vezes.
O vendedor, atento como todos os outros que prezam pela própria mercadoria, sentou e segurou a sacola junto a corpo, como quem saca 50 mil reais de um banco e resolve sair por aí fazendo cara de pouco caso para não levantar suspeitas, mas, ainda assim abraça o dinheiro para que caso a primeira estratégia não funcione a segunda lhe garanta não ser roubado, é como usar o cinto de segurança e continuar prestando atenção no trânsito. Ao abrir as portas da estação entra um homem de vinte e pouquinhos anos com um colete verde limão e o passo apertado, toca o ombro do vendedor mal fingido que agora finge dormir e ordena "abre a sacola!", o homem como uma criança que não quer mostrar o brinquedo que roubou faz uma manhã "nããããão", o guarda, sem medo de ser feliz faz o alarde "vai caralho! Abre logo essa porra, acha que eu to de brincadeira?", enquanto o Capitão Nascimento vociferava havia outro que ficava na porta e dizia calmamente "ninguém vai bater em ninguém, não precisa bater..." e então o que parecia que tinha roubado algo, mas que na verdade estava sendo roubado, deixou que abrissem a sacola enquanto o algoz vislumbrando os chocolates tocava-lhe o ombro gritando "levanta!" e novamente o devir criança emerge com cara de manha "nãããão..", e então devido a demora e a pressa metropolitana, as portas abertas ensaiando fechar e o maquinista tentando seguir viagem, como num coro harmonioso que lembra da pressa e seu inseparável desafeto com que temos de resolver nossas demandas, impulsionou o guarda que estava parado na porta para que se adiantasse e assim, inevitávelmente, como alguém que vê o diretor fazendo ecoar em uníssono a expulsão do aluno da sala de aula junto ao seu professor, o vendedor já pra lá de desmilinguido se levanta e sai andando de cabeça baixa. As portas se fecham, todos desgrudam os olhares e o trem retoma o movimento.
Os garotos a minha volta comentam "esse cara é lá da quebrada", "mó foda né mano, mas também, o cara quer vender nesse aqui", ele se referia aos trens da região do extremo leste que são escuros e estão caindo aos pedaços, como se toda precariedade fosse uma proteção pra quem não quer ser pego, ou ao menos para quem quer tentar se sustentar sem ser incomodado, roubado, agredido e/ou humilhado.
Mais uma vez, foi difícil digerir a situação, só naquele vagão havia ao menos meia dúzia de estômagos digerindo os chocolates "proibidos", não deu pra não ficar pensando se o silêncio era cumplicidade ou submissão, ou quem sabe os dois em comunhão infantil, de quem quer gozar do doce proibido como se não o tivesse feito, como se a proibição não fosse seu problema, ou pior, como se sentisse que o problema era tão seu, que era melhor não abrir a boca para não denunciar o hálito de chocolate "mais barato" e acabar apanhando junto na salinha da segurança.
As vezes acho que o jogo do sistema não é proibir, e nesse ponto, eu tenho de concordar com Foucault, que é incitar, e uma incitação não menos nefasta que provoca: "goze, pode gozar, mas goza quietinho, aliás, você nem gozou né?".

2 comentários:
brother, se isso é "viajar na batata", to precisando de uma batata assim...
sensacional teu texto e relato
já senti isso... pra mim é cumplicidade e submissão, sim, mas muito mais pelo medo da punição do que pela identificação com o carrasco, carrasco este que, por sinal, não sabe nem o pq é carrasco além do salário que lhe caíra na conta ao início do mês seguinte
é como em uma roda gigante, você vê q outros sentem o mesmo medo que você, mas não há como ir contra aquilo, pois estão, cada um, em suas devidas cadeirinhas, amarrados em seus medos e vulneráveis à vontade do operador do brinquedo... entregues à sua mão que decide quando parar
abraços
essa história conversa um pouco com aquele filme. ver o outro foder o cu do outro até sangrar é refresco mesmo, ainda que seja (em prol) para matar sua vontade de chocolate barato ou a favor da militância.
...
iso é muito mais complexo, sim. podia desdobrar mil pesamentos a partir disso.
.
incitar para Poder controlar.
do molar ao macro: provocam provocam provocam incitam um potencial e depois te podam mesmo. de um jeito barato de afirmar um poder sobre o outro.
"podia te fazer (deixar) gozar, mas..."
sabe como é...
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